RESENHA
Achille
Mbembe. Crítica
da Razão Negra. Lisboa: Editora
Antígona, 2014.
Rodney William Eugenio1
No livro Crítica da Razão Negra, Mbembe nos
convida a pensar as diferenças e a própria vida com base numa reflexão sobre o
mundo contemporâneo a partir da experiência negra, lembrando que a visão do
negro no mundo de hoje foi construída pelo sistema escravista nos primórdios do
colonialismo. Dessa forma, a definição de negro é uma categoria social que se
confunde com os conceitos de escravo e de raça.
Enquanto
construção social, negro é um conceito que designa a imagem de uma existência
subalterna e de uma humanidade castrada. Essa percepção econômica da questão
racial tem início na fase mercantilista do capitalismo (quando o negro é
transformado em mercadoria) e perdura no neoliberalismo. O termo “negro” foi
inventado para significar exclusão e em momento algum esteve dissociado da
categoria de escravo. Para Mbembe, observando o enquadramento histórico,
percebe-se que os conceitos foram fundidos. Nas palavras do autor, “Negro” é
aquele que vemos quando nada se vê, quando nada compreendemos e, sobretudo,
quando nada queremos compreender. Essa invisibilidade está no cerne do racismo,
que, além de negar a humanidade do outro, se desenvolve como modelo legitimador
da opressão e da exploração. Mais do que isso, exercício máximo do biopoder, o
racismo representa a escolha de quem deve ser eliminado, numa morte que pode
ser tanto física quanto política ou simbólica.
Uma vez que raça não existe enquanto fato natural físico, antropológico ou genético, seria, na verdade, a redução do corpo e do ser vivo a uma questão de aparência, de pele ou de cor, desempenhando, assim, um papel fundamental no movimento que transforma a pessoa humana em coisa, objeto ou mercadoria. Contraditório em sua essência, o conceito de raça apazigua odiando, mantendo o terror e praticando aquilo que Mbembe chamou de alterocídio, que consiste em “constituir o outro não como semelhante a si mesmo, mas como objeto intrinsecamente ameaçador, do qual é preciso proteger-se, desfazer-se, ou destruir (quando não se pode controlar)”.
Negro seria um exemplo total do “ser-outro”, um símbolo de
inferioridade que, de acordo com o ideal colonialista, devia ser ajudado e
protegido. A África, da mesma forma, representaria um “não-lugar”, signo de
atraso, de ausência de civilização e sem nenhuma contribuição à humanidade. Na
visão eurocêntrica do colonizador, todas as contribuições africanas, sua obra e
conhecimento, assim como a luta de seus povos na diáspora e sua contribuição
para o desenvolvimento histórico das Américas, por exemplo, foram não só
desconsideradas, mas absolutamente desconstruídas, ocultadas ou simplesmente
apagadas. Somente quando a Europa deixou de ser o centro da civilização e da
produção do saber é que se pôde formatar um pensamento crítico em torno do
negro.
A escravidão no colonialismo, ou seja, a partir do século XVI,
construiu o conceito de negro que vigora ainda hoje. A colônia é o lugar onde o
negro deixa de existir enquanto pessoa, isto é, torna-se invisível. Além de
transformar-se em mercadoria, o negro sofre com toda carga de descaracterização
de sua cultura. É justamente o conceito eurocêntrico de civilização que
determina a construção da inferioridade negra, fazendo com que o elemento negro
passe a ser visto como objeto de perigo que, no limite, não pode coexistir.
Disso decorrem as políticas de segregação, como o Apartheid, e os mitos de
superioridade racial. Por outro lado, algumas elites se apropriaram da
ideologia da mestiçagem para negar e desvalorizar a questão racial, haja vista
o exemplo brasileiro com seu célebre Mito da Democracia Racial.

1 Bacharel em Ciências Sociais, Mestre em Gerontologia Social e Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP.
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